Resenha & Poesia

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BIG BANG


© DE João Batista do Lago


Deu-se em mim o big bang
Sou a origem do universo
Diverso
Disperso
Na solitária poeira da explosão
Sou-me, de mim, toda revolução
Desde o meu nada ao meu real
Sou a ordem incriada
Sou divino… Sou profano
Ufano minha loucura:
Sarcófilo viajo
– seja no tempo; seja no espaço –
Diásporo
Origino-me do não-ser
Orgasmo reprodutor de cada ser
Cosmópole que me cumpre ser um em todos

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Amor Animal

Como um animal domesticado
Aprendi a seguir os teus passos
Na ânsia de encontrar os abraços
Vindos do teu corpo sem pecado
Ah, os doces e ternos afagos…
Mimos, carinhos e ternos beijos
Fizeram de mim o teu escravo
E pregaram-me na cruz dos desejos
Agora te sou eternamente grato
Por esse louco amor apaixonado
Mesmo que dele apenas sobra tenha
Ainda assim apaixonado sou
Pela volúpia contumaz do teu corpo
Que me faz capaz de tanto amor

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O CORPO

© DE João Batista do Lago

Que sei de mim?
– Que sei de Deus, então? –
Corpo = pai.
Corpore = filho.
Corpus = espírito.

Surpreende-me o Corpo!
Meu corpo:
Deus sive Natura.
Modelo do meu espelho
Reflete o inconsciente pensamento
Desconhecido do Corpo.

No Corpo
Toda potência;
Toda vontade do Desejo:
Tristeza e Alegria.

No Corpo:
Deus e Natureza!

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PROFANO

© DE João Batista do Lago

Dobram os sinos das seis
É mais um dia que do tempo morre
Enterrando a insensatez:
O cemitério humano
Prenhe de vermes
Ressuscitará no amanhã – talvez ! –
A angústia primeira de
Crer-se sagrado na
Profana carne do
Miserável ser de incertezas vãs

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APOCALIPSE
© DE João Batista do Lago

I
Amanhece e o sol do Oriente sangra
Pássaros e borboletas – anjos de aço –
Dão “bom dia!” de estanhos em fogos!
A velha Palestina – enclausurada! –
Parece mesmo condenada ao pranto eterno,
À miragem apocalíptica de João.
II
Da miserável conduta de Israel, todo um povo arde:
Crianças morrem…
Jovens morrem…
Mulheres morrem…
Homens morrem…
Uma nação morre…
III
Na Meca ecumênica dos poderosos
Onde o deus-mercado se abriga
Parlamenta-se a sorte da guerra
Discute-se uma faixa de terra – Gaza –
Onde um povo esquecido, e de miserável sorte,
Vê sobre si caírem flores de fogo
IV
Abre-se a terra – antes prometida! –
E dela surgem cavalos de ferro
Cuspindo palavras que torram corpos;
Que pisoteiam com seus cascos de aço
Corações de anjos que retornarão do enterro,
Para vingar a maldade da prostituta Israel
V
Do mar surgem peixes-fogo voadores e
carnívoros. Multiplicam-se e devoram as liberdades!
E a prostituta sorrir ao ver os filhos da promessa
Serem massacrados… Humilhados… Dizimados…
Sob a benevolência dum varão que imola,
Que mata sem paixão, pensando lavar seus pecados.
VI
Palestina! A velha senhora implora de joelhos
Um naco de terra para seus filhos plantarem o milho
E colherem a uva que lhes saciarão a fome e a sede…
Mas a nova prostituta – eterna bêbeda –
Banqueteia-se no palácio da Grande Tenda
E faz corte aos bezerros de ouro
VII
Antes do juízo final surgirá um anjo que anunciará:
“A famosa prostituta, aquela grande cidade, cairá!
E os reis do mundo inteiro que com ela deitaram,
E que comeram do milho e beberam do vinho da sua
Imoralidade; perecerão. Só então haverá liberdade.”
E um outro anjo dirá:
- Saia dessa cidade, meu povo!
Saiam todos dela
para não tomarem parte nos seus pecados
e para não participarem dos seus castigos!
Pois os seus pecados estão amontoados até o céu,
e Deus lembra das suas maldades.
Deem a ela o mesmo que ela deu a vocês;
paguem em dobro o que ela fez.
Encham a taça dela com bebida duas vezes mais forte
do que a bebida que ela preparou para vocês.
Deem a ela tanto sofrimento e tristeza
quanto luxo e glória ela deu a si mesma.
Porque ela pensa assim:
“Estou sentada aqui como rainha!
Não sou viúva e nunca mais vou sofrer!”
Por isso num mesmo dia
cairão sobre ela estas pragas:
doenças, dor e fome,
e ela será queimada no fogo.
Pois o Senhor Deus, que a julga, é poderoso.

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Sentado à sala dos suicídios

© DE João Batista do Lago

Sentado à sala dos suicídios
Revi-os todos. Um por um.
De nenhum deles quero renascer!
Sentado sobre minhas tumbas
Assisto o desfile das carcaças
Condenadas à morte

Outrora, quando me era folião
Entrudo dos carnavais da vida
Sentia o gosto do mel
Agora, da corte do meu patíbulo
Vejo a sangria de cada ferida
Cantando loas, aos condenados, em vida

Já não me aquece o desespero de tê-la
Como dantes se fizera precoce:
Modelo que não sabia morrê-la…
Hoje desfilo todos os meus suicídios
Gerados na sacristia das minhas angústias (e)
Aplaudo com carinho todos os meus dissídios

Deem-me férias, pois, todos os deuses
Sacripantas que açulam pretendidos e puritanos e damagogos
Deixem-me suicidado diante de vossos cadafalsos
Aliterem-me como a miudeza dos pingos das chuvas
Como o eco de todas as dores do mundo…
Mas deixem-me sentado à sala dos suicídios

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TEUS LÁBIOS (Soneto)

© by João Batista do Lago

Ah, estes teus lábios sedentos!
Emolduram tua face de mulher
Gritam-me beijos em lamentos (e)
Segredos do teu corpo de mulher.

Ah, estes teus lábios carnudos!
São fontes de todos meus desejos
Fonte da seiva que me põe desnudo
Universo que mais quero e almejo.

Entregue estou sem nenhum recato
Pois o que mais quero é o teu beijo
Ver-me em tua boca é água de regato:

Corre quente feito sangue em minhas veias.
Quero banhar-te com meus beijos feito gato
Lamber o teu sabor e me afogar nas tuas teias.

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DIÁLOGO DE ATHENAS
(Réquiem a São Luis)
(Para Nauro Machado)

by João Batista do Lago

- Olá, poeta.
Há quanto tempo não nos víamos!

- Que olhares,
Que visões têm da ilha?

- Carrego ainda olhares de Athenas,
Visões de um tempo de querências.

- Ainda bem que podes tê-las,
Pois cá não mais a temos… Tudo é demência!

- Da arte que conhecestes pouca coisa restou.
Hoje há muita miséria, violência e dor,

os jardins da cidade não têm mais flores,
as rosas sumiram, os jasmins secaram.

Sobraram as dores dos desamores
e a cidade poeta virou bandida.

Hoje as almas são dormentes ambulantes
De um bonde carregado de miseráveis,

de miseráveis criaturas sem espaço,
sem rosto, sem fé, vermes sem sacristia,

carentes e tolos viventes de vida sem vida,
sem qualquer guarida de telhados e azulejos,

sem histórias, sem eira nem beira,
sem mar e sem praias, sem sal e sem terra.

Ó, poeta,
as gentes dessa cidade já não têm sol

e nem mesmo a lua flutua em suas almas
para lhes sincronizar a sinfonia de Dionísio,

pois elas perderam o riso da harmonia
e se tornaram almas mortas de agonias.

A cidade, poeta, hoje é “apenas”
alma que pena suas dores e seus horrores,

dissimulada de Athenas sem cantores,
sem poetas, sem poesia,

ilhada no besteirol da vaidade comum
pensada, apenas, na vermelha lama do consumo.

É assim, hoje, a tua ilha: cercada de grilhões
que aprisionam Prometeus nas rochas da ignomínia,

que favorecem os tufões da incompetência
que se sentam à mesa dos poderosos

e diante de um lauto manjar
exigem dos poetas a continência,

exigem toda reverência
para lhes legitimar toda incompetência.

Poeta… Perdemos os telhados.
Todos os telhados perdemos.

Perdemos as sacadas.
Todas as sacadas perdemos.

Perdemos nossas ruas.
Todas as ruas perdemos.

Perdemos nossas fontes.
Todas as fontes perdemos.

Não temos telhados,
nem as sacadas temos.

Não temos ruas,
nem as fontes temos.

Estamos sós… Ilhados estamos.
Perdidos – todos – somos, poeta.

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Alienatório

Lá vai um homem
Para o seu trabalho
Para o seu trabalho
Lá vai um homem…

Todo dia é sempre tudo igual
A “Coisa” toma sua dose letal…

Lá vem um homem
Para a sua casa
Para a sua casa
Lá vem um homem…

Todo dia é sempre tudo igual
A “Coisa” prepara seu ato final…

Quando vai para o trabalho
A “Coisa” não desespera…
Espera!
Quando vai para sua casa
A “Coisa” espera…
Desespera!

Toma uma cachaça no boteco
Tira-gosto com lingüiça…
Espreguiça-se no balcão do nada
Troca um lero-lero com a rapaziada…
E aí vai pra casa ruminando a liça

Assoviando um bolero…
Cantarola:
“Eu não sou cachorro, não
para viver…”

Todo dia é sempre tudo igual!

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Tags: batistadolago, joaobatistadolago, joaopoetadobrasil, surracionalismo

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